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domingo, 25 de setembro de 2011

Negrinha acenando

Galera, tive a idéia de cada um pensar em falas para sua "prostituta", ou caminhoneiro, que se possível tivesse alguma ligação com sua cena, ou tese... O que acham? Ex. Na fala do Vinícius ele poderia citar a morte da véia, algo assim... O que acham? Pra quem não tem o original:

UMA NEGRINHA ACENANDO, de Dalton Trevisan
Seis e meia da tarde, na estrada. Garota de calça azul berrante e blusa vermelha.

GAROTA: Dá uma carona, moço?

CAMINHONEIRO: Suba. De volta do emprego?

GAROTA: Estou paquerando.

CAMINHONEIRO: Não diga. Faz isso todo dia?

GAROTA: Quando não chove.

GAROTA: Desde muito na vida?

GAROTA: Faz um ano. Uma ruiva me trouxe. Ela também paquera.

CAMINHONEIRO: Quem foi o primeiro?

GAROTA: Meu noivo. Queria saber se era moça.

CAMINHONEIRO: Ficou grávida?

GAROTA: Tive um menino. Quase um aninho. Chuva ou sem chuva, são dois pacotes de leite por dia.

CAMINHONEIRO:Teus pais sabem?

GAROTA: Pensam que trabalho de diarista.

CAMINHONEIRO:Como é a paquera?

GAROTA: A gente faz sinal. Até que alguém pára. Às vezes fica freguês.

CAMINHONEIRO: Aonde vão? Alguma casa?

GAROTA: Que casa. No caminhão. No mato.

CAMINHONEIRO:Você faz tudo?

GAROTA: O normal.

CAMINHONEIRO: Sente algum prazer?

GAROTA: Difícil. Eles sempre com pressa.

CAMINHONEIRO: Quanto você cobra?

GAROTA: Meia nota.

CAMINHONEIRO: Hoje foi bom?

GAROTA: Não ganhei nada. Tem dia bom. Depende de sorte.

CAMINHONEIRO: Qual o pior dia?

GAROTA: Quando chove. Ou muito frio. Cato graveto e acendo foguinho debaixo da ponte.

CAMINHONEIRO: E a hora pior?

GAROTA: Do almoço. Daí eles não param.

CAMINHONEIRO: Você almoça?

GAROTA: Eu, hein!

CAMINHONEIRO: Como você vem?

GAROTA: Cedinho saímos de casa, eu e a ruiva. Andamos um bom pedaço. Medo de meus pais. Daí ficamos pedindo carona. De repente um pára.

CAMINHONEIRO: E a volta?

GAROTA: Mais custosa. Ainda se ameaça chuva.

CAMINHONEIRO: Já anoiteceu na estrada?

GAROTA: Um par de vezes.

CAMINHONEIRO: Quando amanhece chovendo?

GAROTA: A gente não vem.

CAMINHONEIRO: Qual foi o melhor dia?

GAROTA: O dia que peguei sete.

CAMINHONEIRO: Já tenho visto na estrada essa calça azul.

GAROTA: De onde o senhor é?

CAMINHONEIRO: Estou de passagem. Há muitas como você?

GAROTA: Uma em cada curva. Muita menina. De treze e catorze anos. Dão até por amor.

CAMINHONEIRO: Onde?

GAROTA: No matinho. Atrás da moita.

CAMINHONEIRO: Não engravidam?

GAROTA: Lá são bobas feito eu.

CAMINHONEIRO: Esses dentes. O que aconteceu?

Tão novinha.

GAROTA: Doía o do meio. Bem aqui na frente.

CAMINHONEIRO: Quem te atendeu?

GAROTA: O dentista do governo.

CAMINHONEIRO: Por que tirou os outros?

GAROTA: Eu disse: “Dói tudo.” E ele: Já viu debulhar milho? Daí arrancou os quatro.

CAMINHONEIRO: Chegamos. Aqui você desce.

GAROTA:Até qualquer dia, moço.

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